No ensaio “ O quanto o que você faz vai valer? ” abordei minha visão sobre como os preços dos chamados serviços intelectuais — e por consequência vários outros — tendem a se comportar com o avanço da IA. Porém, não é pelo simples fato de algo ser uma tendência que se torna uma sentença definitiva.

Afinal, somos uma espécie conhecida por conseguir se adaptar e adaptar o ambiente ao nosso redor de acordo com nossas necessidades e possibilidades. Se o ambiente de negócios está mudando, nada mais justo do que aplicarmos as mesmas capacidades evolutivas que nos trouxeram até aqui.

Partindo do racional de que o preço da inteligência e todos os bens e serviços ligados a ela sofrerá uma queda drástica nos próximos anos devido aos avanços da IA, temos alguns cenários possíveis.

O primeiro é refutar completamente essa hipótese — ou no mínimo acreditar piamente que você, por algum motivo, não será impactado por ela. Nessa visão, o tipo específico de inteligência que você traz para o jogo no seu contexto de mercado não será afetado pela IA, e seus clientes continuarão dispostos a pagar o que pagam hoje, ou até mais caro no futuro, ao não verem alternativas que entreguem melhor custo-benefício.

Se essa é sua visão, pode parar a leitura por aqui.

Isso posto, acredito ser muito arriscado se apegar a esse cenário. Afinal, ele é o mesmo que dizer que você acredita que a combinação de mentes geniais, bilhões de dólares de investimento e uma gigantesca demanda de mercado não resultarão em mais evolução tecnológica daqui para frente. Em outras palavras, é apostar contra a história e a natureza humana.

Se você entende isso, passa então a fazer parte do segundo grupo: aqueles que acreditam que serão afetados pelo efeito deflacionário da inteligência e que o único caminho é pensar em como ser o driver de mudança em seu mercado, não uma vítima.

Dessa posição, temos quatro possíveis vias de ação:

  1. Aceitar a derrota
  2. Ser o agente causador do efeito deflacionário em seu mercado
  3. Focar em otimizar suas margens para não precisar brigar por preço
  4. Buscar inovar através de diferenciação ou reposicionamento

Por motivos óbvios, não entrarei nos detalhes do primeiro caminho.

O segundo caminho é em vez de esperar que alguém use IA para tornar seu trabalho obsoleto, seja você mesmo quem faz isso.

Essa estratégia é especialmente relevante em serviços profissionais onde a competição já é intensa. Se você atua em áreas como design, consultoria, desenvolvimento ou marketing, provavelmente já sente a pressão competitiva no dia a dia. A IA só vai acelerar essa pressão — então melhor ser você quem a causa e controla a maioria dos efeitos do que virar refém dela.

Essa estratégia parte de uma premissa simples: se a IA vai democratizar e baratear seu serviço mesmo, melhor que seja você lucrando com isso do que assistindo de camarote enquanto outro pega seu mercado.

Imagine que você é um designer gráfico e cobra R$ 2.000 por uma identidade visual completa. Você pode esperar até que apareça alguém oferecendo o mesmo serviço por R$ 200 usando IA, ou pode ser você mesmo quem lança uma ferramenta que entrega identidades visuais de qualidade por R$ 200, atendendo 20 clientes no tempo que antes atendia dois.

O truque aqui não é apenas usar IA como ferramenta — isso todo mundo vai fazer eventualmente. O truque é reestruturar completamente seu modelo de negócio para surfar na onda deflacionária em vez de ser engolido por ela.

Pense na Uber: eles não melhoraram o serviço de táxi, eles tornaram o transporte individual mais barato e acessível usando tecnologia. No processo, destruíram a margem dos taxistas tradicionais, mas criaram um mercado muito maior.

Se você escolher esse caminho, alguns pontos são fundamentais: