Imagine a seguinte situação: você está andando pela rua e de repente se depara com dois homens. Um deles segura uma maleta com um milhão de reais e te convida para um jogo que possui quatro regras.
E não, o jogo não possui nenhuma pegadinha, o dinheiro é limpo, honesto e livre de impostos ou qualquer obrigação fiscal ou legal, além disso você também não sabe nada sobre nenhum dos dois homens e nem pode perguntar.
Com isso em mente, qual proposta de divisão você aceitaria?
Posso apostar que se fosse proposto algo como meio a meio você diria sim sem pensar muito, talvez até aceitasse uma divisão sessenta quarenta, sendo você quem fica com a menor parte, mas à medida que a divisão se torna menos equilibrada, será que você ainda assim aceitaria?
Se a proposta fosse por exemplo, um real para você e todo o restante para o homem que lhe fez a proposta, qual seria a sua resposta? E se fosse somente um centavo para você?
O que acabei de descrever é o famoso “Ultimatum Game”, um experimento clássico da economia comportamental. Os dados são consistentes: propostas que oferecem menos de 30-40% para o recebedor são rejeitadas em cerca de metade dos casos, mesmo quando isso significa que ambos saem com zero. Na prática, qualquer valor acima de zero é um resultado objetivamente positivo e você deveria aceitar, porém, à medida que a divisão se torna desequilibrada nossa disposição a rejeitar a proposta aumenta.
A moral da história: ao percebermos um tratamento injusto, preferimos uma situação onde todos ficamos piores mas que percebemos como justa do que uma situação onde objetivamente saímos melhor (com mais dinheiro do que tínhamos antes) porém com sensação de injustiça. O que realmente importa não é apenas o ganho objetivo, mas uma percepção combinada onde fatores subjetivos pesam tanto quanto os números.
Sendo isso verdade, aqui está a pergunta de um milhão de reais: o quanto o que você faz hoje vai valer quando o ChatGPT for capaz de fazer com 80% da qualidade que você faz? E quando ele chegar aos 95%?
Talvez você goste de pensar que é especial e aquilo que faz é único e diferenciado, mas sejamos francos aqui: provavelmente não é.
De trabalhos de pesquisa de mercado à terapia, passando por conselhos de negócio ou produção de código, a grande verdade é que a maioria dos chamados trabalhos intelectuais possui seu valor ligado à regra simples de oferta e demanda. E a maior parte da demanda não procura o que existe de melhor, mas sim um bom custo-benefício. Logo, mesmo que você seja extremamente único e diferenciado, isso não significa que a demanda por sua individualidade seja assim tão alta.
Partindo dessa premissa, temos uma conclusão lógica: o preço da inteligência vai cair.
Os números comprovam isso. O custo de inferência de modelos de linguagem de ponta despencou dramaticamente: estamos falando de quedas de 10 a 900 vezes por ano, dependendo da métrica. Modelos equivalentes ao GPT-4 tiveram redução de até 62 vezes no preço desde 2023. Hoje, modelos open-source hospedados custam entre US$ 0,01 a US$ 0,06 por milhão de tokens – praticamente de graça para uso comum.
Com o avanço da IA, a disposição a pagar por trabalhos intelectuais clássicos vai, na esmagadora maioria dos casos, convergir para um valor próximo do que custa para uma IA entregar. Com modelos open-source, isso tende a ser bem próximo de zero – ou, seguindo as leis informais da internet, vinte dólares por mês.
Mas se isso acontece nas APIs e sistemas de chat, por que não chegaria também ao mundo real?
Por que vou continuar pagando centenas de milhares de reais em um projeto de consultoria se uma combinação do ChatGPT com Deep Research pode me entregar algo que chega a 90% do resultado? Por que gastar meses esperando uma software house criar um MVP para meu negócio se hoje, com o chamado “vibe coding”, consigo criar algo bom o bastante para testar? Por que pagar mil reais por mês para fazer terapia uma vez por semana se posso, por cem reais, ter o ChatGPT aplicando a escola de minha preferência para conversar comigo 24 horas por dia?